Sarney Filho revoluciona o discurso sobre a proteção da Amazônia

Fiscal do Ibama observa destruição de serraria em uma das regiões mais pobres do Maranhão, estado de Sarney Filho, que aplaude a ratificação do tratado de Paris em foto de José Cruz/Agência Brasil. A foto do agente do Ibama é de Felipe Werneck/Ascom-Ibama,
Sarney Filho, no exercício do cargo de ministro do ½ ambiente, decidiu perambular pela Amazônia e apresentou por lá uma curiosa novidade, quase uma revolução, no discurso do movimento ambientalista. Desde os anos 70, quando os ecopatas redimiram o Japão do crime de assassinar baleiras e se voltaram para Amazônia, este blogueiro não via uma tal novidade. Não fosse o discurso oco, este escriba seria capaz de mudar de opinião sobre Sarney Filho. Sente-se para não cair e ouça você mesmo o que o homem disse nas franjas da floresta:


Entenderam? "O estado brasileiro precisa reconhecer a dívida que tem com essa região e bancar para que internacionalmente a gente consiga recursos que possam viabilizar o desenvolvimento, o combate a pobreza, a inclusão, através de programas financiados por esses organismos e esses por esses países e que se beneficiam desses serviços que a Amazônia presta", diz o homem no vídeo.

“A Amazônia presta diversos serviços ambientais ao planeta e é preciso haver pagamento por esses serviços”, disse ele em outra ocasião não gravada. Parece até que ele leu isso aqui no blog.

O movimento ambientalista é feito por gente que se importa apenas com o ½ ambiente e não liga para as pessoas. Nem sei quantas vezes eu escrevi isso aqui neste blog ou no outro, o Desambientalismo.com.

Meus carros ostentam sempre um adesivo onde se lê, em inglês, Save an Amazonian, burn an environmentalist. É uma sátira do comportamento do ambientalismo de ½ ambiente.

Quando o Ibama lacra e queima uma serraria na Amazônia ele protege a floresta, mas desemprega todas as pessoas que viviam daquele empreendimento. O mesmo se aplica quando um forno de carvão é demolido, ou alguém é forçado a sair de uma Unidade de Conservação ambiental. Os ambientalistas não ligam para as consequências sociais dos seus atos.

Isso não significa que a serraria, o forno ou a família devam continuar lá. Significa apenas uma alerta sobre as consequências da coerção sobre as pessoas, sobre de esforço em oferecer alternativas de emprego e renda sustentáveis.

A critica que faço, sempre fiz e continuarei fazendo, seja por meio de blogs, redes sociais ou adesivos em carros, é em relação à indiferença do ambientalismo ordinário aos efeitos sociais dessa coerção. Os heróis do Ibama e os ambientalistas das ONGs pouco se importam com os efeitos dos seus atos de Comando & Controle sobre a população da Amazônia. Em relação à proteção da Amazônia, o ambientalismo é fascistoide.

Sexta-feira passada o site da BBC publicou uma matéria sobre o Parque Nacional de Karizanga, na Índia. Por lá os fiscais ambientais estão atirando em pessoas suspeitas (repare bem suspeitas) de caçar rinoceronte, vilas estão sendo destruídas e as pessoas sendo expulsas em nome da proteção ambiental. Veja aí. Aperte o play mesmo que você não entenda inglês. As imagens falam sem palavras:
Lei a matéria da BBC: Kaziranga: The park that shoots people to protect rhinos

É mais ou menos isso que o ambientalismo faz no Brasil. A diferença é que não há o ato radical do assassínio. Os amazônidas são mortos aos poucos, expulsos aos poucos na medida em que seus empregos e oportunidades na economia de fronteira são tolhidas pelo Ibama que multa pessoas, embarga áreas e queima serrarias e máquinas suspeitas (repare bem suspeitas) de envolvimento em crimes ambientais.

Aqui e ali essas canalhices do bem, essas ecocanalhices, aparecem feito pústulas:

O próprio Sarney Filho já foi porta-voz do discurso ambiental fascistoide que justifica a violência contra as pessoas em nome da proteção ambiental. Veja aí nesse outro vídeo feito na época em que o Ministro do ½ Ambiente era Marina Silva e o aparato estatal estava mobilizado em acabar com o desmatamento na Amazônia:

A mudança no discurso de Sarney Filho, para mim, é surpreendente. Marina Silva, por exemplo, nunca foi capaz reconhecer que há qualquer coisa parecida com dívida do Brasil ou do mundo com o povo da Amazônia.

Nesse sentido, o reconhecimento de Sarney Filho de que o povo da Amazônia é credor dos serviços ambientais que presta ao mundo não deixa de ser uma avanço. O ato mereceria reverência se fosse sério, mas na minha opinião, não é.

Na minha opinião, Sarney Filho, raposa velha da política tradicional, discursou para a platéia em seu passeio pela Amazônia. Ele apenas disse o que povo da Amazônia gostaria de ouvir, mas no fundo o discurso é oco. As atitudes falam mais do que as palavas em bocas de demagogos.

Em sua viagem, a única coisa que o Ministro levou para a Amazônia foi o Ibama, novas Unidades de Conservação e convênios com ONGs ambientalistas. As palavras de Sarney Filho dão conta de que a Amazônia precisa receber pelos serviços ambientais que presta ao mundo, mas suas atitudes não passam do velho Comando e Controle de sempre.

Sarney Filho não fala sobre a responsabilidade do mundo em relação aos serviços ambientais da Amazônia em suas viagens internacionais. Aos gringos ele apenas diz que vai lutar contra o desmatamento feito pelo povo da Amazônia. Ao povo da Amazônia, ele diz que vai lutar contra a indiferença dos gringos. A promessa feita aos gringos vem sendo cumprida com empenho, a outra, não.

Enquanto Sarney Filho perambula pela Amazônia contando histórias garantidas e caprichosas para boi dormir, o povo de Novo Progresso, no Pará (veja aqui), e da região sul do Amazonas (veja aqui), perambula por Brasília tetando reverter a ampliação de Unidades de Conservação que, assim como a ampliação do parque de Karizanga, ameaça suas vidas e seu futuro.

Quando o Governador do Amazonas, José Melo, falou em ligar o estado ao resto do mundo asfaltando a BR-319, Sarney Filho se esquivou do compromisso limitando-se a dizer: "tudo é possível". No Acre, estado de Marina Silva, Sarney Filho passou longe da Reserva Extrativista Chico Mendes, o maior exemplo de fracasso do movimento ambiental na Amazônia.


Foi difícil de concluir esse post. O fato de Sarney Filho introduzir no discurso ordinário do ambientalismo fascistoide esse componente inovador de reconhecer que o povo da Amazônia precisa de atenção internacional é inquietante. Mas seria muito melhor se essa inovação viesse de um político sério.

A imagem do post é uma composição feita no Fotor.com com fotos de Felipe Werneck - Ascom/Ibama (destruição da serraria) e José Cruz/Agência Brasil (Sarney Filho)

Saiba mais sobre o ambientalismo fascistoide:




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