quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Crimes ambientais são mais graves do que assassinato

O menino Akash, de 7 anos, foi baleado por fiscais ambientais e tem que ser carregado pelo irmão mais velho (Foto: David Reid)
Guardas de uma área de proteção ambiental na Índia defendem os animais atirando e matando pessoas suspeitas de estarem caçando no local. A decisão tem gerado uma polêmica nos últimos dias na internet: teria a guerra pelo meio ambiente ido longe demais? Para quem não sabe, fiscais do Ibama fazem coisa parecida no Brasil. Veja aqui: O crime perfeito

O parque nacional de Kaziranga tem um histórico de sucesso em conservação. Há um século, o número de rinocerontes não passava de cinco na região do rio Assan, no extremo leste do país. Agora existem mais de 2,4 mil. Os fiscais responsáveis pela proteção do parque têm poderes de atirar e matar garantidos apenas a forças policiais.

O resultado é a morte, em média, de duas pessoas por mês, mais de 20 por ano. Em 2015, mais pessoas foram mortas pelas guardas do parque do que o total de rinocerontes abatidos por caçadores.

"A instrução é: sempre que você vir caçadores, use suas armas para caçá-los", disse um deles sem hesitação ao jornalista da BBC. "Você atira neles?", perguntou o repórter. "Sim, a ordem é matá-los. Sempre que forem vistos caçadores ou qualquer pessoa durante a noite, a ordem é atirar neles", respondeu o fiscal.

Veja também: Polícia Federal vai investigar morte de caçador por fiscal do Ibama em Jandaíra

O governo deu aos guardas de Kaziranga poderes contra ações judiciais em caso de mortes. Críticos dizem que, com isso, os guardas estariam sendo instruídos a realizar "execuções extrajudiciais".

Ninguém sabe ao certo quantas pessoas foram assassinadas em nome da proteção ambiental em Kaziranga. "Nós não guardamos todos os registros", diz um oficial sênior do Departamento de Florestas da Índia, que controla os parques nacionais.

O diretor do parque, Satyendra Singh, explica que é difícil controlar caçadores. Segundo ele, as gangues de caça ilegal costumam recrutar pessoas da região para ajudá-las a entrar no parque. Os atiradores, no entanto, vêm de outros Estados do país.

"Primeiro fazemos a abordagem: 'quem são vocês'?", diz Singh, sobre as regras de aproximação entre guardas e caçadores. "Mas se eles decidirem disparar, nós temos que matá-los. A prioridade é tentar prendê-los, para que possamos obter informações sobre as gangues." Ele revelou à BBC que 50 caçadores foram mortos nos últimos três anos.

Já para os moradores, grupos tribais que vivem na floresta há séculos, muitos pessoas inocentes estão sendo assassinadas pelos guardas do parque.

Kachu Kealing e sua esposa vivem em uma vila miserável às margens do parque. O filho deles, Goanburah, deficiente mental, foi baleado por guardas florestais em dezembro de 2013.

Goanburah procurava as duas vacas da família. Seu pai acredita que elas entraram na área do parque e que seu filho entrou no parque para procurá-las. Esse é um erro comum, já que não há cercas demarcando o perímetro da reserva.

As autoridades do parque, por sua vez, dizem que os guardas dispararam contra Goanburah porque ele, deficiente mental procurando duas vacas da família, não respondeu à abordagem.

Kachu Kealing acha que não pode fazer nada sobre o caso, especialmente por causa da proteção que os guardas da Unidade de Conservação têm contra processos judiciais. "Eu não entrei na Justiça. Sou um homem pobre, não poderia pagar por isso", disse o pai de Goanburah à BBC.

Os esforços de preservação ambiental focam em algumas espécies consideradas emblemáticas na Índia, a chamada megafauna carismática. Rinocerontes e tigres se tornaram símbolos da Índia onde há muito indiano e pouco tigre. Além disso, Kaziranga atrai por ano mais de 170 mil turistas interessados na vida selvagem que contribuem com a economia local.

Em 2013, quando o número de rinocerontes mortos por caçadores mais do que dobrou, somando 27, políticos locais pediram ação. O antigo diretor do parque, MK Yadava, detalhou num relatório sua estratégia para combater a caça em Kaziranga.

Veja também: Desmatamento na Amazônia subiu 25% em 2015 e provocou aumento de 3,5% na emissão de gases

Ninguém sem autorização poderia entrar, disse. E qualquer um descoberto na área do parque deveria "obedecer ou ser morto". Ele recomendou que "matar os indesejados" deveria ser o princípio orientador dos guardas.

Yadava ainda explicou sua crença de que crimes ambientais, incluindo a caça ilegal, são mais graves que assassinato: "Eles corroem silenciosamente a raiz da existência de todas as civilizações da Terra".

De 2013 a 2014, o número de mortes de supostos caçadores ilegais subiu de cinco para 22. Em 2015, 23 pessoas foram assassinadas, contra 17 rinocerontes no mesmo período.

7 anos

Em julho do ano passado, Akash Orang, de 7 anos, ia para casa pelo principal caminho de sua vila, que contorna o parque. Sua voz vacila quando se lembra do que aconteceu. "Estava voltando das compras. Os guardas florestais estavam gritando 'Rinocerontes! Rinocerontes!'". Ele fez uma pausa. "De repente, eles atiraram em mim."

O tiro atingiu sua perna direita. Akash ficou internado por cinco meses e foi submetido a várias cirurgias. Hoje ele mal consegue andar. Seu irmão mais velho tem que carregá-lo. Seu pai, Dilip Orang, diz que Akash está diferente. "Ele era alegre, mas não é mais. Ele acorda à noite com dor e chora, pedindo a atenção da mãe".

O caso de Akash comoveu os moradores do vilarejo, chamando atenção da BBC diante do número crescente de mortes. Centenas protestaram na sede do parque.

Veja também: O golpe da Medida Provisória nº 756

O ativista de direitos humanos Pranab Doley, membro de uma tribo local, mostra uma sacola cheia de papel. Ele fez vários pedidos sob o Lei de Acesso à Informação da Índia. As respostas mostram que os casos não foram acompanhados como deveriam. De nove supostos caçadores que foram mortos, seis sequer foram identificados. "Não há nem inquérito policial", diz Doley.

O parque diz que não é responsável por investigar os assassinatos e que as ações tomadas estão de acordo com a lei.

Nos últimos três anos, apenas duas pessoas foram processadas por caça ilegal. O parque justifica que o número de mortes é alto porque gangues de caçadores fortemente armadas iniciam tiroteios contra os guardas.

Entretanto, as estatísticas indicam que esses confrontos começam mais de um lado: nos últimos 20 anos, apenas um guarda foi morto, contra 106 pessoas mortas por eles. "Esse tipo de impunidade é perigosa. Está criando uma tensão entre o parque e as pessoas que vivem no seu entorno", diz Doley.

As tribos locais afirmam que estão sendo extintas para proteção dos animais que o parque tenta proteger.

A causa dessas tribos foi abraçada pela organização Survival International, de Londres. Ela argumenta que os direitos das pessoas ao redor do parque estão sendo sacrificados em nome da proteção do meio ambiente.

"O parque está sendo dirigido com extrema brutalidade", diz a diretora da Survival Sophie Grig. "Não há júri, não há juiz, não há interrogatório", diz ela.

Veja também: Operação Hymenaea, realizada pelo Ibama em conjunto com a Polícia Federal, combate grupo criminoso responsável por extrair e comercializar ilegalmente madeira da Reserva Biológica do Gurupi e das Terras

A Survival acusa o WWF de incentivar a política do assassinato de pessoas em nome da proteção do meio ambiente. "O WWF tem disponibilizado equipamentos e recursos para os guards do parque. A Survival tem repetidamente pedido para que eles se pronunciem contra as execuções extrajudiciais, mas eles não fizeram nada", disse Grig à BBC.

O site da WWF India não nega que a ONG financiou o treinamento dos guardas de Kaziranga e forneceu equipamentos, incluindo óculos de visão noturna, para reforçar o combate à caça ilegal. "O que é preciso é a proteção do solo. A caça ilegal tem que parar", disse à BBC o gerente do programa de conservação da WWF na Índia, Dipankar Ghose.

Ambientalistas defendem os assassinatos em nome da proteção do meio ambiente em Kaziranga. "Nenhum parque existiria na Índia sem as operações contra a caça ilegal", diz o naturalista e escritor Valmik Thapar. "Em alguns casos especiais, você pode usar a arma contra a arma", completa.

Mas não são apenas as ações contra a caça ilegal que ameaçam as comunidades locais.

Animais selvagens, como tigres e rinocerontes, precisam de muito espaço. Para acomodá-los, a Índia está planejando a expansão dos parques nacionais, o que envolve a realocação de 900 vilarejos - mais de 200 mil pessoas terão que deixar suas casas.

Kaziranga dobrará de tamanho. Recentemente, a polícia estadual destruiu dois vilarejos e despejou seus moradores. Duas pessoas, um pai de dois filhos e uma jovem estudante, morreram.

"Essa é a política e a filosofia deles, retirar pessoas daqui e criar uma floresta intocada", critica o ativista Pranab Doley.

Em tempo: Este blogger criou um blog só para contar histórias parecidas com essa acontecendo no Brasil. Conheça o www.desambientalismo.com

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