domingo, 15 de janeiro de 2017

Não processem a Imperatriz Leopoldinense... por enquanto.

Recebi a indicação de uma matéria do Jornal da Manhã, de Uberaba, Minas Gerais. A matéria avisa que o Sindicato Rural de Uberaba estuda processar a escola de samba Imperatriz Leopoldinense que criticará o agro no próximo carnaval. Eu acho que é um erro. O setor rural não deve, na minha opinião, processar a escola de samba. Pelo menos não por enquanto.

O enredo da escola de samba na verdade não é um problema. É preconceituoso e falso em relação ao agro, mas é apenas um sintoma. O problema é forma torta como a sociedade urbana enxerga o agro. Essa forma torta se manifesta de diversas maneiras. Se manifesta na postura de certos procuradores do Ministério Público, em decisões judiciais, em matérias de jornal, no movimento ambiental e por aí vai.

Processar a Imperatriz Leopoldinense não ajudará em nada na solução do problema real. Pelo contrário. Se conseguíssemos uma decisão judicial favorável, o que é improvável, a escola desfilaria de burca e morreria dizendo que os ruralistas malvadões censuraram o carnaval. A sociedade ficaria do lado da escola e contra nós. Como, aliás, já está ficando em razão da nossa incompetência na área de comunicação.

Na minha opinião, as entidades que emitiram nota contra o enredo da Imperatriz Leopoldinense, ao invés de processar a escola ou enveredar por outras maluquices, deveriam se juntar em um fórum para discutir de forma SÉRIA e competente COMO SE COMUNICAR COM A SOCIEDADE URBANA.

Não estou falando aqui de propagando no Fantástico. Isso é ineficaz e ineficiente. Falo de um trabalho sério de comunicação.

Não processem a Imperatriz antes do carnaval. Há uma obra de arte moderna chamada "Merda d'artista". Um italiano chamado Piero Manzoni armazenou seu próprio cocô em 90 latinhas numeradas contendo 30g de bosta cada uma. Em 2015, a lata nº 54 foi vendida em um leilão da Christies por £ 182,500, pouco mais de R$ 700 mil.

Uma lata de cocô que vale R$ 700 mil é o preço que a sociedade paga para ter um Rembrandt ou um Renoir. Michel Foucault é o custo social de Albert Einstein, Paulo Coelho é o custo social de Euclides da Cunha, Miriam Leitão é o custo social de Truman Capote. A arte, a ciência, a literatura e o jornalismo devem ser livres para fazer o que bem entenderem. Devem, entretanto, se responsabilizar pelas consequências dos seus atos.

Eu penso (e todo penso é torto) que o setor deveria deixar a Imperatriz desfilar em paz. Depois do desfile, o setor deve caracterizar muito bem o dano de imagem ao agro decorrente do enredo preconceituoso da escola e processá-la com todas as forçar.

O mais importante agora, todavia, além de qualificar a nossa posição, é canalizar a indignação do setor para um projeto sério de comunicação.

Boa semana.

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