Porque a ignorância de Inácio de Loyola Brandão não é inocente

Não sou eu quem está chamando Inácio de Loyola Brandão de ignorante. Foi ele mesmo quem assumiu a condição em um dos seus últimos textos publicados no Estadão: Toquei a sumaúma, árvore de 500 anos.

O escritor escreve sobre sua experiência recente de perambular pela Amazônia a bordo de um transatlântico cujo motor e os condicionadores de ar que movimentaram e amenizaram o calor da região eram movidos à combustível fóssil. O texto de Brandão transpira o deslumbramento natural que os não amazônidas sentem quando percebem a Amazônia.

No meio do texto, prenho desse deslumbramento, o escritor diz sobre a reforma do Código Florestal: "me dei conta de como somos ignorantes em relação ao Amazonas. Tão ignorantes quanto esses que redigiram e aprovaram o novo Código Florestal, que a presidente deveria vetar, num gesto de sabedoria e amor à pátria. Aliás, os que redigiram e aprovaram não são ignorantes, são espertos, manobradores e safados em relação ao Brasil."

A ignorância do velho escritor é evidente só pela confusão entra o rio Amazonas e a região Amazônica, duas coisas intimamente relacionadas, mas completamente diferentes. Fico me perguntando se Inácio de Loyola Brandão conhece ou ignora o texto do Novo Código Florestal. A impressão que tenho é a de que ele não leu o texto, portanto o ignora. Apesar disso foi capaz de tecer tão dura crítica ao texto.

Eu até entendo o escritor. A Amazônia em geral, e o Amazonas em particular, causam nas pessoas, sobretudo nos forasteiros, um sentimento impressionante de deslumbramento, como um indivíduo diante de uma maravilha antes desconhecida. Esse sentimento misturado a rumores de que a tal maravilha está ameaçada pelo mal e desprotegida causa nas pessoas uma vontade de se lançar em sua defesa. É essa a origem de apupos como que deu Inácio de Loyola Brandão contra o Código Florestal.

Agora, há diferenças entre almas medíocres e grandes almas. Euclides da Cunha fez uma viagem pelo Amazônas semelhante a que fez Inácio de Loyola Brandão e também deslumbrou-se diante da paisagem. Brandão provavelmente leu os relatos de Euclides da Cunha sobre suas viagens ao pelo Amazônas. O termo "paisagem avassaladora" usando por Brandão é euclidiano. Mas, ao contrário de Inácio de Loyola Brandão, Euclides da Cunha, mesmo diante do deslumbramento, foi capaz de enxergar o que Brandão viu no seu Amazônas: os amazônidas.

"No Amazonas acontece, de feito, hoje, essa cruel antilogia: sobre a terra farta e a crescer na plenitude risonha de sua vida, agita-se, miseravelmente, uma sociedade que está morrendo", escreveu Euclides da Cunha no prefácio do livro Inferno Verde de Alberto Rangel, seu amigo.

É certo que quando Euclides da Cunha navegou pelo Rio Amazônas não havia ameaça ambiental à região. Fato que pode ter tornado Euclides menos cego aos dramas humanos escondidos sob a floresta. O fenômeno recente da ameaça ambiental à região perpetrada pelo homem tornou as pessoas mais propensas a relativizar seu humanismo. Assim, um escritor que se deslumbre com a floresta nos dias de hoje pode defender leis que anulem o homem caso essas leis protejam o objeto daquele maravilhamento.

Veja por exemplo o vídeo abaixo. Euclides, com a mente livre da trave da necessidade de salvar a Amazônia dos homens, viu a protagonista do vídeo; Loyola Brandão, cego pela vontade de proteger a maravilha ameaçada, não viu.



Eu acho que a Amazônia precisa ser salva da ignorância. No fundo, quem ameaça a floresta não é a humanidade em si, mas a ignorância dos bem intencionados.

Vejam aí mais alguns vídeos que mostram o que há de desumano na ignorância de Inácio de Loyola Brandão:






Em tempo, me deixem lhes contar uma história sobre sumaúma. Eu estudei em Belém, no Pará. Um belo dia fui com alguns colegas de faculdade tomar cerveja e bordejar em uma município vizinho à grande Belém. Escolhemos um boteco às margens de um dos milhares de igarapés que existem por lá. Havia uma imensa sumaumeira de mais de 500 anos no pátio do boteco, bem na beira do riozinho e foi debaixo da sumaúma que nós nos abancamos.

Pusemos as mesas e espalhamos as cadeias meio cercados pelas imensas raízes da árvore histórica. Ficamos ali, tomando cerveja, comendo caranguejo e peixe frito. Não demorou e começaram as intermináveis discussões filosóficas sobre agronomia, meio ambiente, ambientalismo, onguismo, Amazônia e por aí vai.

Em um determinado momento, do qual me lembro como se tivesse acontecido ontem, eu e um colega estudante de economia, estávamos recostados nas cadeiras, apoiadas apenas nos dois pés de trás, e com os encostos apoiados na raiz da Sumaúma. Eu de uma lado da mesa, ele do outro. Um colega estava de pé, do lado da mesa, martelando uma patola de caranguejo e as três mulheres do bando estavam pubando no igarapé só com as cabeças de fora. Era um daqueles momentos rápidos em que o assunto se esvai e fica só o silêncio. Do nada meu colega economista disse um frase impressionante. Ele e eu estavamos olhando a copa da sumauma meio pelada pelo queda das folhas no verão, quando o grande filósofo perorou: "Se um gringo me pagar 5 mil por mês eu faço uma casa e vou morar na copa dessa sumaúma".

É, ou não é, um gênio da economia ambiental.

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Comentários

A amazônia, precisa sim, ser salva destas Ongs do demônio que depois de uma atuaçao forte das mesmas, começando na Amazônia, acabaram por controlar todo o Brasil.

Olha uma das muitas destruições que essas ervas daninhas causaram ao nosso País:

ALDO REBELO: Situação do Amazonas.O Estado tem 98% de floresta e 2% abertos.É justo impor 80% de Reserva Legal sobre 2%?

Aguardem, com esta bomba verde conhecida como o Novo Código Florestal gerado pelo nossos políticos(Maria vai com as outras), nos próximos anos, o controle de nossas terras será total...as custas dos palhaços, que somos nós, claro!
Embora injustificável, ainda é compreensível que uma pessoa comum tome uma posição equivocada com boa intenção, por ser ignorante sobre este assunto.

Não é a toa que existe o ditado: ”de boas intenções o inferno está cheio”.

Porém, boa intenção não basta. É preciso fazer a coisa certa. Para fazer a coisa certa é necessário conhecimento, senão, apesar da boa intenção acaba fazendo a coisa errada e causando resultados perversos.

Mas, neste caso, a atitude equivocada dum escritor conhecido tem efeitos perversos multiplicados, pois vai influenciar muitas pessoas.

Portanto o Ignácio de Loyola Brandão não tem direito de ser tão ignorante. Neste caso, se não for de má fé, é no mínimo uma irresponsabilidade.
kiko santos disse…
tudo tem vida tem ciclo, depois de maduro tem que ser aproveitado para sobrevivencia da humanidade e criar espaço para os novos que estão nascendo e crescendo. o novo código protegeu muito bem a mata quando impediu o uso da lenha nativa para fins energéticos/