Por que os jornalistas estrangeiros não compreendem a reforma do Código Florestal?

Nature Magazine e a cobertura internacional da reforma do Código Florestal: Brasil decidido a cortar proteção às florestas. Verdade?
Meses atrás recebi um email de uma jornalista do Canal de TV alemão ZDF. A jornalista queria que eu indicasse a ela nomes de produtores rurais da região de Santarém, no Pará, que estivessem enfrentando problemas para adequarem seus imóveis ao Código Florestal. A TV queria entrevistar e filmar as áreas agricultadas no passado cuja produção teria que ser extinta para adequação dos imóveis à nova lei, mas queria fazer isso na Amazônia.

Respondi a ela o obvio: que a reforma do Código Florestal era um problema eminentemente não amazônico, que o grande problema para adequação dos imóveis à lei estava fora da Amazônia e que era esse conflito que sustentava politicamente o processo de reforma. A jornalista me respondeu que a reportagem seria "feita na Amazônia, por ser uma região emblemática e de conhecimento do público alemão." Ou seja, o mundo está se lixando para os problemas do Brasil. Eles estão preocupados é com a Amazônia, a floresta deles.

Como não conheço ninguém na região de Santarém, tentei contato com o Presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Pará (Faepa), o Dr. Carlos Xavier, que é daqui de Paragominas, mas meus telefonemas não foram atendidos. O pessoal do sistema sindical tem uma relação esquisita comigo. Alguns falam comigo e são bastante cordiais, mas a maioria mantém uma distância segura entre eles e eu e meu blog. O fato é que não consegui nenhum nome que pudesse ajudar a rede de TV Alemã e sugeri que eles procurassem o Presidente do Sindicato Rural local. Não sei que resultado teve isso e nem importa.

Conto essa história para ressaltar uma confusão recorrente na cobertura jornalística internacional sobre a reforma do Código Florestal: Eles não conseguem tratar o tema como uma reforma de uma lei que abrange o país inteiro, são incapazes de perceber que os problemas de adequação dos imóveis rurais ao Código Florestal são maiores fora da Amazônia do que na Amazônia. O que sustenta a reforma do Código Floresta são os plantios de arroz em várzea no Rio Grande do Sul, a bananicultua no Vale do Ribeira em São Paulo, os plantios de maçãs em pequenos imóveis de Santa Catarina, a pecuária leiteira e o café do Sul de Minas Gerais, e por aí vai.

Mas você acha que um jornalista norte americano ou alemão está lá preocupado com as vacas do sul de Minas? Eles nem sabem que Minas existe e não se importam com a existência dos catarinos. Tem brasileiro que não sabe o que diabos é um catarino, imagine um jornalista alemão!? A preocupação deles é com a Amazônia. Acabam confundindo o anseio por um novo Código Florestal com anseio desmatador. Jornalista gringo acredita piamente que os "ruralistas" brasileiros, um tipo semelhante aos bad guys que usam os chapéus pretos nos filmes de far west, querem mudar a lei para desmatar a Amazônia. O que é uma tolice absoluta, mas eles não têm ferramentas para se livrar dessa conclusão errada.

As ONGs ambientalistas que atuam no Brasil tem grande responsabilidade nisso. Eles ressaltam sempre que podem essa percepção dos correspondentes estrangeiros. Às ONGs interessa essa confusão porque é a preocupação com o futuro da Amazônia, como disse a jornalistas Alemã, "uma região emblemática e de conhecimento do público alemão", que mantém as Fundações Norte Americanas e Europeias propensas a manter o fluxo de recursos para que as próprias ONGs defendam esse futuro.

Vejam por exemplo o texto publicado na Revista Nature da semana passada sobre a votação final na Câmara dos Deputados do texto de reforma do Código Florestal: Brazil set to cut forest protection. A manchete já exemplifica bem o ponto que eu tento mostrar aqui. Jeff Tollefson, que escreveu a matéria, afirma na manchete que o "Brasil está decido a reduzir a proteção às florestas".

É mentira. O novo texto do Código Florestal nasceu pela necessidade de regular o passivo ambiental que ele mesmo criou. É uma lei voltada para a adequação do desmatamento feito no passado. A proteção às florestas existentes, o desmatamento futuro, é exatamente a mesma da lei vigente. O novo texto não altera o velho no que concerne a desmatamento futuro. Ao contrário, o novo texto cria mecanismos para o controle efetivo do desmatamento futuro que não existem na lei vigente, como o Cadastro Ambiental, por exemplo.

Tollefson afirma no texto publicado na Nature que a reforma do Código Florestal foi uma reação rural contra a repressão ao desmatamento. O articulista sustenta seu ponto de vista na opinião de Steve Schwartzman, um dos ambientalistas que criou o martírio de Chico Mendes atiçando-o contra um assassino contumaz e provocando sua morte. Segundo Schwartzman o Brasil reduziu o desmatamento na Amazônia, mas a reforma doo Código Florestal é totalmente capaz de reverter essa tendência.

É mentira. O enforcement público que tentou coibir o desmatamento na Amazônia teve como suporte institucional decretos que permitiam embargar áreas pela suspeita de inadequação ao Código Florestal. O Estado brasileiro não dispões de um cadastro georreferenciado com os limites dos imóveis rurais e é impossível saber se os produtores rurais estão ou não de acordo com a lei. O que possibilitou a coerção aos desmatamentos ilegais na Amazônia não foi o Código Florestal vigente.

É importante destacar a forma como ambientalista ouvido pela Nature fez questão de remarcar, embora mentido, que a reforma ameaça a Amazônia. É uma forma de manter a opinião pública internacional alinhada com o interesse os ecotalibãs pressionando a presidente do poder Executivo brasileiro a vetar um texto aprovado por ampla maioria no Congresso Nacional.

Se Jeff Tollefson tivesse se ocupado de estudar melhor o processo de reforma do Código Florestal teria verificado que o texto foi aprovado no Congresso Nacional brasileiro por ampla maioria de votos e que os tal lobby rural tem 20% dos votos da casa. Esse tipo de abordagem da mídia internacional é recorrente.

Minha opinião é a de que os líderes do setor rural nacional deveria fazer um esforço para desfazer essa confusão. As ONGs se aproveitam dela, então o interesse dos ecólatras é ressaltar e sustentar esse sofisma, não jogar luz sobre ele. Essa é uma tarefa que cabe a nós.

7 comentários:

Ciro Siqueira disse...

Coincidentemente, minutos depois de ter publicado esse post, a Senadora Katia Abreu postou a seguinte mensagem no Twitter:

Neste fim de semana recebi o jornalista Axel Gylden, da revista francesa L'Express, e o super fotógrafo Ludovic Careme. Estiveram comigo na CNA, no Senado e na nossa fazenda em Aliança do Tocantins. Vieram para me conhecer e entrevistar. Também viram de perto o Agro do Brasil, que cada dia mais faz sucesso por lá!!

Entenderam? É disso que estou falando.

LuisFValeriano disse...

Ciro, mais uma vez um excelente texto. Trazer as informações como você faz é algo de grandeza e importância imensurável.

Mas ficando no tema de seu artigo é uma pena que fica evidenciado que em plena Nature seja publicado algo que só faz concluir que o Brasil se resume apenas a Amazônia...

Luiz Prado disse...

A estratégia das ONG$ é clara: engessar o território nacional, engessar a agricultura, a pecuária, e de quebra o dinamismo natural das cidades. É só uma questão de se perguntar quem os paga. Quem paga as franchises locais de ONG$ gringas são os gringos, porque aqui eles não se criariam. E quem paga as SOS Mata Atlântica e congêneres? Isso eles não dizem.

Eduardo disse...

Toda vez que leio o Ciro e os ambientalóides, aqui e acolá, eu faço o seguinte: tenho duas fotos aqui no meu escritório, lado a lado e coloridas!
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Uma da Marina Silva com aquele cabelo, aquela roupa e aquele físico anoréxico, com outro da Kátia Abreu com toda a sua pompa discreta e riqueza de ideias.
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Assim, olhando para as duas fotos, eu leio o Ciro e os ambientalóides.
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A Marina é o velho, decadente, século retrasado com um discurso cheirando a mofo.
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Quanto à Kátia, aquele sopro de bálsamo. Noves fora, claro o colírio para os olhos, né?
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Aí, sim, dá para engolir o texto dessa turma de vagabundos e apreciar a beleza pontual dos artigos do Ciro.

Braso disse...

Excelente texto, fico indignado com a postura da maior parte de nossas lideranças rurais, eu respeitava Katia Abreu mas hoje vejo ela mais preocupada em alinhar com os ambientalistas"do governo próximos de Dilma, o dia nós que lutamos para sobreviver da terra nos unirmos para eleger nas federações agrícolas os verdadeiros lideres tirados tirados e escolhidos entre um de nós, com certezas as coisas vão ser diferentes.

João Lima disse...

Ciro, diz pro jornalista vir a Marabá e aqui eu levo ele pra entrevistar quantos ele quiser. Inclusive aqueles que REFLORESTARAM e não conseguem licença.

Mix disse...

Achei o texto excelente quanto a questão da Amazônia e quanto ao argumento usado pela maioria dos ambientalistas que são contra o "Novo Código Florestal".
Porém, discordo quando é mencionado que "O novo texto não altera o velho no que concerne a desmatamento futuro."
Eu mesma considero investimento comprar um imóvel em APP topo de morro para lucrar migalhas caso siga aprovada a proposta.
Moro no Estado de São Paulo. As áreas aqui são georeferenciadas. E a legislação ambiental e fiscalização seguem mancas, porém como exemplo aos demais estados.
A especulação imobiliária é um efeito colateral inevitável.
Outro ponto que comento são as zonas de recarga de mananciais. Será prejudicado a qualidade da água e o abastecimento futuro da população do sudeste?
E a ultima questão que coloco: Será que o brasileiro sabe o quanto vale os recursos naturais que terá com mais facilidade? Ou os venderemos aos estrangeiros a preço de banana?
Acho que há ambientalistas estrangeiros se posicionando contra o "Novo Código Florestal" sim. Mas há outros estrangeiros, não tão evidenciados, com grande interesse na aprovação da proposta.