Pequenas nostalgias e como anda a reforma do Código Florestal

Hoje tive um dia de trabalho no campo. De sol a sol. Tive que passar por uma região que invariavelmente me desperta sentimentos inquietantes e difíceis de descrever. É uma região onde o Estado epenas finge que chegou, então é como se, naquela fração de mundo, a Amazônia ainda vivesse como há 30 anos atrás. É estranho passar no meio de todas aquelas serrarias, toda aquela fumaça, todas aquelas pessoas pobres, maltrapilhas, mas altivas e ostentando uma dignidade dura no olhar.


Sempre tenho muita dificuldade para explicar, mesmo na solidão, de mim pra mim, o que sinto quando passo naquele lugar. Não é saudade. Não gostaria de rever aquela Amazônia dos anos 90 pela minha janela. É uma espécie de nostalgia branda que começa em algum lugar no quengo, passa rápido pela garganta e morre em um pequeno nozinho diminuto na boca do estomago.

Lembro sempre com um sentimento assim do gosto da cerveja meio quente ao final do dia de trabalho, do sol sumindo vermelho por trás da cortina de fumaça branca, do barulho do motor estacionário trazendo a luz de volta, do cheiro acre da fumaça dos restos de madeira úmida queimando nos pátios das serrarias, do cheiro macio das cinzas e da terra molhadas nas primeiras chuvas do ano, do piado agudo do peito-de-aço, da rudeza das pessoas incultas, mas humanas, das casas de tábuas, do cheiro e do gosto do cigarro barato. É muito estranho passar naquele lugar.

É estranho, mas é útil, acho eu. Aquele canto do mundo não me deixa esquecer de que lugar e de que ponto no passado eu venho. Não me deixa esquecer que aquelas pessoas existiram e existem, meio agentes e meio pacientes das circunstâncias. No fundo, no fundo eu gosto daquela nostalgia branda.

Já ia me esquecendo do Código Florestal

O negócio é o seguinte. Segunda feira houve uma reunião dos deputados que defendem o setor rural, do governo e da oposição e de quase todos os partidos. Estavam todos pintados para guerra. Decidiram alterar o texto do Senado mesmo contra a vontade do governo consolidando toda a área agrícola existente antes de julho de 2008 em APP.

Os deputados estão decididos a não levar para casa a culpa de legalizar a destruição de 33 milhões de hectares de terras agrícolas. Não vão passar recibo na insanidade dos ambientalistas do governo (e das ONGs) que não se importam de atochar essa exigência nos produtores rurais independentemente das consequências que isso trará em termos de concentração fundiária, êxodo rural aumento nos preços dos alimentos, etc. O governo, se quiser fazer a vontade das ONGs, vai ter que empurrar isso nos produtores por sua conta e risco.

O problema é que a decisão dos deputados fará o governo engavetar o texto de reforma do Código Florestal e todos nós voltaremos à estaca zero, as ONGs de talibãs da clorofila vão dar pulinhos e os produtores rurais continuaram sendo currados pelo Ibama e o Ministério Público com a lei vigente (apesar de todos saberem, a essa altura do campeonato, que a lei é incumprível).

Para contornar esse impasse dos deputados, inclusive aqueles da base aliada, prometem obstruir todas as votações de interesse do governo até que o governo aceita botar o texto de reforma do Código Florestal em votação. Ou seja, o plano dos deputados é não votar nada até que o governo aceite votar o Código Florestal.

Vejamos o que acontece nos próximos dias.

Em tempo, este blogger estará perambulando pela Amazônia longe das redes wi-fi. Portanto, as informações aqui não estarão assim tão novas. Mas procurarei, na medida do impossível, manter o blog atualizado.

Comentários

Luis Pereira disse…
Prezado Ciro,

Essa tua nostalgia me contagiou e me fez lembrar de velhos tempos na década de 80 quando conheci Rondônia, Amazonas e Acre pela primeira vez.

Esse lance do motor estacionário e do cigarro barato, as vendas na beira da estrada, prato feito de chambari, vira-lata sujo, sorriso amarelo de quenga, idosos simpáticos e queimados do sol, trabalhador valente e contador de histórias, paca cozida no leite da castanha, carro atolado na "estrada", seringueiros e suas tralhas, ....

Bateu uma sôdade aqui.
Ciro Siqueira disse…
Isso é porque você é boa gente. Prato feito de chambari também é uma lembrança boa. Os pratos costumavam ser esmaltados porque eram os únicos que resistiam à dureza do transporte. Sorriso de quenga e carne de paca também são duas lembranças boas.
As nossas origens é o que é de mais importantes a cada um de nós. É a verdade de somos, mesmo que pinçados de outros tons. Lembro-me, do Ribeirão Santana, no Município de Tocantinópolis-TO, afluente do Rio Tocantins. Seus belos Piaus, Pacus, Mandis, matrinçhas,etc, suas margens ornadas e guardadas por matas , passáros, pacas, jacus, tatus, cotias, jaós ,etc.
Ciro Siqueira disse…
Conheço Tocantipnóolís e o Ribeirão Santana. Já passei umas noites naquelas palhaços de uma dos balneários que há por lá.