Sobre Código Florestal e jabuticabas

Curva de Kuznets
Quando a gente estuda economia ambiental (não confundir com economia ecológica) um dos primeiros tópicos que a gente vê é uma tal de Curva de Kuznets Ambental. É uma hipótese desenvolvida por um economista russo-americano chamado Simon Kuznets e que, em razão da consistência empírica, foi aproveitada pela economia ambiental.

De acordo com essa teoria diversos indicadores de qualidade ambiental, entre eles o desmatamento, se comportam conforme a curva de Kuznets que relaciona qualidade ambiental e renda per capita das nações. Países com baixíssima renda, em estágios iniciais de seu desenvolvimento econômico, apresentam baixo desmatamento (e.g. EUA antes da independência). Na medida em que esses países avançam no desenvolvimento e, consequentemente, elevam sua renda per capta, eles também elevam rapidamente o desmatamento (e.g. EUA depois da Independência até a marcha para o Oeste). Mas isso até um determinado nível de desenvolvimento. A partir desse nível, quando os países estão mais ricos e desenvolvidos, o nível de desmatamento começa a cair chegando até a cessar completamente (e.g. EUA do século XIX até hoje).

No meio acadêmico, onde perambulam cientistas sérios, essa teoria é mais conhecida do que matemática básica. O grande debate acadêmico, o grande debate acadêmico sério, está centrado em como construir uma ponte entre as duas pernas da curva de Kuznets, fazendo com que países ainda pobres comecem a reduzir o desmatamento antes de atingirem o pico da curva. Esse debate acadêmico sério está no fundamento, por exemplo, do Protocolo de Kioto que criou os tais Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (MDL). Esse mecanismo nada mais é do que uma forma de transferir recursos de países em estágios de desenvolvimento avançado para que países ainda em estágios iniciais de desenvolvimento possam começar o processo de redução do desmatamento antes de atingirem o pico da curva Kutznets.

Mas, para além do debate acadêmico sério, há a desonestidade intelectual do Imazon e Greenpeace. As ONGs apresentaram um estudo mostrando que alguns países desenvolvidos apresentam pouco ou nenhum desmamento elém de leis ambientais rígidas para proteger e reconstruir florestas. O que há de novo nisso? Absolutamente nada. Todo acadêmico sério sabe disso. Mas as ONGs tentaram dar uma outra roupagem ao óbvio.

Os fundamentalistas ambientais estavam preocupados com a evidência de que apenas o Brasil tem um Código Florestal. A lógica era que se eles encontrassem outros países com leis ambientais prejudiciais à agricultura, isso justificaria que o Brasil também prejudicasse seus produtores rurais em nome de mais florestas. As ONGs resolveram então contratar, e pagar, uma equipe de "pesquisadores" para fuçaram as legislações do planeta em busca de leis iguais ao nosso Código Florestal. Diz a lenda que "numa tarde de fim de junho deste ano, durante uma reunião do Greenpeace, o tema da exclusividade nacional do Código Florestal voltou à mesa". O que está entre aspas foi recortado do relatório final desse trabalho.

Depois de rodar o mundo procurando outras leis que, como a nossa, esculhambem a produção rural, as ONGs não encontraram quase nada. Uma lei na Austrália, outra mais ou menos parecida no Paraguai e só. Desesperados com a falha da busca, os "pesquisadores" das ONGs, habituados que são a imposturas científicas, mudaram os indicadores. Ao invés de procurarem apenas as leis iguais ao Código Florestal, começaram a procurar qualquer lei que leve a mais floresta. Deram de cara com os países ricos que já estão da metade pra frente da curva de Kuznets e encontraram um terreno fértil à sofismologia habitual lá deles.

Depois gastaram o resto do dinheiro com o pessoal de marketing tentando encontrar uma frase que resumisse o pastelão. Encontraram uma boa: O código Florestal não é jabuticaba. Não sei o que o Greenpeace tem contra as jabuticabas, mas a frase pegou e os militontos cibernéticos das ONGs estão fazendo a festa com ela deste cedo tentando justificar o injutificável: que o Brasil continue criminalizando, multando e perseguindo seus produtores rurais.

Mas, no fundo, sabe o que o trabalho das ONGs mostra? Que países ricos, depois de se desenvolverem desmatando tudo, vêm legislando e incentivando seus produtores a plantarem floresta onde, em geral, já não tinha nada, ou quase nada. Acharam uma evidência da consistência teórica da hipótese de Kuznets aplicada ao meio ambiente. O Greenpeace e o Imazon, duas ONGs de ambientalismo fundamentalista, acham que isso justifica que o Brasil, que não tem renda per capita de país desenvolvido, cesse seu desenvolvimento em nome de arremedar os países ricos.

Articulistas de jornal como o ongueiro da Folha de São Paulo, Claudio Angelo, e a ambientalista (por osmose do marido) da Globo, Miriam Leitão, concordam com as ONGs. Eles acham que o Brasil pode sustar o desenvolvimento da nossa economia em prol de encurtar por contra própria - e ônus próprio - o caminho natural de todos os países soberanos exposto na curva de Kuznets.

O que é que você acha? O Brasil deve permanecer florestado e pobre? O Brasil deve desmatar tudo para fazer o que os países ricos fizeram?

Eu, de minha parte, acho que o Brasil não deve fazer nem uma coisa, nem outra. Se nós formos inteligentes acharemos uma forma de construir o tal túnel na nossa curva de Kuznets ambiental, fazendo com que os países ricos banquem o nosso desenvolvimento para que nós possamos atingir níveis de renda e de qualidade de vida elevados sem termos que esculhambar nossas florestas como eles fizeram inconsequentemente.

Mas isso implica em fluxo de recursos financeiros dos países ricos para os países periféricos e os países ricos simplesmente preferem não fazer isso. Vide por exemplo o completo fracasso de implementação do protocolo de Kioto e de seus mecanismos de encurtamento das curvas de Kuzntes dos países em desenvolvimento. É muito mais barato para os países ricos pagarem o Imazon e o Geenpeace para fazer relatórios cheios de sofismas e convencerem jornalistas engajados como Mirian Leitão e Claudio Angelo a ajudá-los a convencer um bando de militontos cibernéticos. Parabéns ao Greenpeace que não gosta de jabuticaba.

Em tempo, escrever sobre a curva de Kuznets Ambiental me deu saudades do Mestrado, quando eu tinha tempo e a oportunidade de debater em nível elevadíssimo. Esse entrevero com ONGueiros de 1/2 ambiente e militontos cibernéticos em torno do Código Florestal tá me emburrecendo.

Obs.:
Se você encontrar por aí o relatório das ONGs a que esse post se refere e resolver ler, o problema é seu. É lixo puro. Vá ler um conto do Milton Hatoun que você aprenderá mais sobre a Amazônia.

Comentários

Luiz Prado disse…
Vai o link
http://www.guardian.co.uk/environment/georgemonbiot/2011/sep/16/zoophobic-wild-boar?INTCMP=SRCH
A Inglaterra é o único país europeu que conseguiu levar à extinção todos os seus grandes carnívoros.
Cadê os punheteiros do Greenshit e esses cientistas de bolsilho?
ABAIXO A DITADURA AMBIENTAL NO BRASIL!!

CHEGA , ESTAMOS CANSADOS DE MENTIRAS!!

FORA GREENPEACE!!!
No final deste estudo o Greenpeace diz
“defendemos soluções ambientalmente seguras e socialmente justas, que ofereçam esperança para esta e para as futuras gerações e inspiramos pessoas a se tornarem responsáveis pelo planeta”

Mas o atual Código Florestal de 1965 (CF-65) é SOCIALMENTE INJUSTO, pois impõe aos ruralistas, a maioria agricultores pobres, sem nenhuma compensação justa, todo o ônus da Preservação necessária para compensar o Desmatamento e Poluição causadas pelo consumo dos urbanos, principalmente dos médios e ricos das cidades.

Por ser SOCIALMENTE INJUSTO o CF-65 não pode ser Culturalmente Aceito pelos ruralistas, gerando resistência e revolta em vez de inspirar as pessoas a se tornarem responsáveis pelo planeta.

Então é incoerente que o Greenpeace defenda este CF-65.

Quem estiver de boa fé defende mudanças no CF-65 que o tornem Socialmente Justo, racional, com fundamentos técnico-científicos, aceitando usos com compensações que mantenham as funções ambientais, pagamento Justo pelos Serviços Ambientais, etc.

Também tem que fazer campanhas para resolver as causas dos problemas ambientais, ou seja: paternidade responsável; fim do desperdício e do consumismo irresponsável; fim do uso de produtos não biodegradáveis e/ou poluidores; reuso e reciclagem total; tratamento total de esgotos e resíduos sólidos, etc.

Um exemplo do cúmulo da hipocrisia.
Obrigam os ruralistas a preservarem para manter as nascentes e rios, para que sejam sugados nas cidades pelos urbanos, que devolvem as águas poluídas acabando com os rios.

Se houvesse boa fé, a campanha para obrigar os urbanos a economizarem e tratarem toda a poluição teria que ser muito maior do que a campanha para obrigar os ruralistas a preservarem.

Vinicius Nardi, por uma Preservação e Desenvolvimento Justos, Sustentáveis e Eficientes.
O Greenpeace teve que encomendar um estudo ao ProForest e ao Imazon para saber se havia Legislação Ambiental Estrangeira (LAE).

Não sei se as informações são corretas ou estão manipuladas e deformadas como as que se referem ao Brasil.

Não sei se a LAE é Socialmente Justa e se pagam pelos Serviços Ambientais prestados pelas áreas Preservadas, ou se é Socialmente Injusta e confiscam a terra sem nenhuma compensação, como é feito no Brasil.

Não sei se as restrições são racionais, fundamentadas e aceitam compensações que mantenham as funções ambientais permitindo o uso sustentável ou se são irracionais, sem fundamentos, sem compensações e proibindo o uso como é feito no Brasil.

Mas, sem dúvida, ISTO PROVA QUE ELES NÃO SABIAM, tanto é que tiveram que fazer um estudo para se informarem.

Se não sabiam, ISTO PROVA QUE ELES NÃO ATUAM NOS OUTROS PAÍSES.

Então por que esta atuação tão radical, proibitiva, punitiva, irracional, infundada e Socialmente Injusta aqui no Brasil?

Vinicius Nardi, por uma Preservação e Desenvolvimento Justos, Sustentáveis e Eficientes.
Cássio Marcon disse…
Acho que faz muito tempo que tu fez esse mestrado com essas discussões de nível elevadíssimo em Ciro.

O economista José Eli da Veiga deixa bem claro em seus livros mais recentes que a hipótese da Curva de Kuznets Ambiental não possui tanto embasamento empírico quanto se pensava e quanto tu fala.

Quando mais índices de qualidade ambiental foram analisados essa curva não se sustentou.

Em vez de regra, a curva de Kuznets é a exceção. Poucas nações reduziram seus impactos ambientais de maneira ampla e generalizada com o aumento da renda per capita, como propõe a hipótese em questão.
Ciro Siqueira disse…
Meu mestrado foi concluído em 2004. De lá pra cá, infelizmente, apareceram muito mais Cassios dos que Pettersons e Prados para debater aqui no blog.
Na época já havia esse debate. Alguns indicardores parecem não se comportar conforme a curva de Kuznets. Lixo por exemplo, é um. Quando mais ricas e urbanizadas as sociedades ficam mais lixo (intelectual inclusive) elas produzem.
Tem isso e tem a charlatanice ambiental. Gente que fica construindo indicador por econometria para que eles não encaixem na teoria. Não é difícil.
Em tempo, O Eli da Veiga não é economista. É engenheiro agrônomo como pós graduação em economia... como eu, aliás.