Salve um amazônida

Algumas vezes meu trabalho me aborrece. Já perdi uma reunião com a Senadora Katia Abreu e não pude ir a manifestação dos produtores em Brasília por ter que bater ponto. Mas, por outro lado, meu trabalho me dá certas alegrias. Tenho contado direto com produtores rurais, gente do campo. Tenho a oportunidade de conhecê-los de perto. Acho que isso é o que me possibilita uma visão sui generis sobre o Código Florestal, meio ambiente e a questão amazônica.
Rodovia PA 256, Margem direita do Rio Capim, Paragominas, Pará, Brasil
Hoje conheci mais um produtor rural. Um senhor que veio para a Amazônia em 1971 sem ter sequer uma cachorrinha pra puxar. Montou um açougue, economizou uma grana, comprou mercadorias no sul, vendeu no norte, juntou mais uma grana, comprou uma terrinha, depois outra, pegou um PROTERRA e hoje, quase meio século depois, é um produtor rural na Amazônia. Praticamente um demônio.

O homem não tem condição cognitiva para compreender o significado de termos como biodiversidade, holístico ou taxa de desfrute. Enquanto conversava com ele lembrei do Prof. Gerd Spavorek. Gerd me disse outro dia que melhorar o uso das áreas de pastagens necessitava apenas da primeira aula de zootecnia. Aquele produtor rural que estava na minha frente nem sabe o que é zootecnia.

Almocei com o produtor e a esposa dele. Comi uma galinha caipira soborosíssima. Conversamos bastante sobre a história de vida da família dele e o funcionamento da fazenda. Tentei fazer uma anaminese. Sempre faço isso quando tenho oportunidade. A história de vida dessas pessoas me interessa muito e sempre consigo uma noção geral sobre o sistema de produção do imóvel.

Mas hoje acho que fiquei meio deprimido. Quando sai da fazenda dele não voltei para casa. Dirigi até a beira do rio Capim. Parei e acendi um cigarro quase um ano depois de ter parado de fumar. Fiquei lá uns minutos pitando e olhando a água do rio correr e a barranca na outra margem. Lembrei de um conto melancólico do Guimarães Rosa chamado A terceira margem.

Do carro que estava parado na minha frente esperando a barca para atravessar o rio cheio desceram dois idosos. Do outro lado da rodovia, em um barraco de madeira, havia uma criança de uns 8 meses sentada semi-nua sobre uma mesa de tábuas brincando com um copo de plástico carmim. Quando o cigarro acabou, tirei a foto que ilustra esse post, manobrei o carro e voltei para casa.

Comentários

Luiz Prado disse…
BELO RELATO. MAS O "BIOMA" (O USO DESSA PALAVRA PELA ZUMBIENTALISTAS & ASSOCIADOS INC. É MUITO DIVERTIDO) DOS PAULISTANOS BEM NASCIDOS, DO BANCO MUNDIAL (BLEARGH), DO GREENSHIT ET CATERVA NÃO INCLUI A TÃO INCÔMODA ESPÉCIE HUMANA.
Adoro ler sobre qualquer coisa da amazônia, principalmente qdo vem de alguém que está lá e vive a realidade.
Espero estar mandando meu "salve da amazônida" daqui alguns dias. Agora estou na Bahia, mas a amazônia ocidental me espera.
P.S.: quem é o autor do post?
Ciro Siqueira disse…
O curioso é que o nome do rio é capim.