Pré-concepções turvam

Esse texto é um comentário ao texto do Professor Efrain Rodrigues publicado no Blog Ambiente por Inteiro sob o título Conservação Inevitável.

Não é a primeira vez que leio uma comparação entre a resistência das oligarquias rurais brasileiras nos estertores do Império ao fim da escravidão e o esperneio nos produtores rurais de hoje por mudanças no Código Florestal. Toda vez que vejo essa metáfora não consigo evitar que me venha à mente a lembrança de uma pornochanchada dos anos 80, Bonitinha mas ordinária. A metáfora é bonitinha, quem a usa, em geral fica com um ar de superioridade como se dissesse ao interlocutor "vês como sou nobre e estou certo quanto tu é um retrógrado equivocado". Mas a metáfora também é ordinária, não no sentido que Nelson Rodrigues deu à palavra no seu texto, mas no sentido de simples.

O fim da escravidão não foi o fim da história e a vitória da avant-gard sobre os demônios oligarcas do latifúndio agrário exportador brasileiro não resultou na modernização dos sistemas de produção rural da época, nem muito menos na inclusão social dos libertos. Os demônios oligarcas do latifúndio agrário exportador brasileiro apenas substituíram a escravidão clara de gente de pele escura pela escravidão escura de gente de pele clara expulsos do velho mundo pela miséria. Os demônios oligarcas do latifúndio agrário exportador brasileiro continuaram os demônios oligarcas do latifúndio agrário exportador brasileiro. Há quem creia nesses fantasmas até hoje.

O fato da história da resistência ao fim da escravidão dos produtores rurais de outrora ser parecida em alguns aspectos com a resistência dos produtores rurais de hoje à imposição do Código Florestal não torna o fim da escravidão e a imposição do Código Florestal igualmente nobres. É apenas uma associação espúria, bonitinha, mas ordinária.

É certo que o debate público sobre esse tema deveria contribuir para uma solução mais adequada, mas quando há assimetria de informação, de acesso às mídias e pouca ou nenhuma isenção é muito fácil manipular a opinião pública. "Debate público" em geral é um eufemismo usado pelos lobby verde para pastorar a opinião pública ao encontro dos seus interesses.

O brasileiro urbano em geral ignora a vida no campo e confia nos ambientalistas. Tocar a opinião pública contra os demônios oligarcas do latifúndio agrário exportador brasileiro, que são uma espécie reencarnação moderna das bruxas da idade média, é uma tarefa simples.

É certo que existem "ruralistas" obtusos que anseiam por destruir o meio ambiente, mas isso por si só não sentencia que o Código Florestal seja a melhor estratégia para conservar florestas. As restrições que o Código Florestal impõe aos produtores rurais vão muito além de alterações no sistema de produção. É ilusório achar que o Código Florestal contribui para uma agricultura mais sustentável. O Código Florestal exige apenas uma Reserva Legal e a manutenção de áreas de preservação permanente. Um produtor que faça isso está de acordo com a lei ainda que use mais agroquímicos e adubos do que o necessário, ou ainda que deixe seu solo erodir, ou ainda que produza menos do que poderia. Por outro lado, um produtor que minimize o uso de agroquímicos e adubos, que produza o máximo usando o mínimo de recursos, que conserve o seu solo e não tenha reserva legal é um criminoso.

O barulho, as assossiações espúrias, os sofismas, a passionalidade do debate sobre o Código Florestal servem ao propósito de esconder coisas simples. A única forma de se sair dessa esparrela é despir-se de preconcepções e olhar para o problema tácita e razoavelmente. Por exemplo, veja o argumento exposto no texto Leis Também Envelhecem publicado no O Globo On Line. O que se pode dizer sobre ele?

Comentários

Petterson disse…
Também já ouvi esse paralelo um par de vezes, e fiquei tão assustado quanto você. Eles dizem que a escravidão só acabou por pressão dos ingleses, e que por isso devemos aceitar a intromissão das ONGs estrangeiras; como se não tivessem sido exatamente os ingleses a lucrarem massivamente com a escravidão.
Dizem que os escravistas argumentavam que perderiam capital, e que ninguém estava disposto a lhes ressarcir; seria o mesmo argumento dos atuais desmatadores. A diferença é que acabar com a escravidão (digamos que tivesse de fato acabado) trazia inquestionável benefício de curtíssimo prazo para milhões de seres humanos, o que não se aplica de forma alguma ao caso da reserva legal.
Abraço
Luiz Prado disse…
A comparação é tão espúria quanto ordinária no sentido rodrigueano mesmo, de prostituição barata (no caso, uma prostituição com ares "intelectuais"). Porque aqui, como nos EUA (resslavadas as diferenças entre os dois países), não havia unanimidade entre os senhores rurais (e urbanos) sobre a manutenção da escravidão.

O paralelo é tão pretensioso quando cretino, já que o Código Florestal atinge muito mais os pequenos e médios do que os grandes que compram "compensações" de reservas legais em outros lugares ou em parques de papel (prática que ja vem se tornando comum no Rio de Janeiro também).
Selso disse…
Este é o jeito esquerdista de agir:

Se auto atribuem os guardiães da moral, das virtudes, das boas intenções e
a quem não concorde com eles, a safadeza , os vícios (do presente e do passado), a intenções egoístas,maléficas, obsenas, etc...