(In)Eficácia do Código Florestal

Brincadeira Para-científica

Hoje, revirando despretensiosamente um livro de Antony Hall deparei-me com a citação de uma estimativa de desmatamento na Amazônia feita pelo Professor Eneas Salati em 1987, baseada em imagens do Landsat. Segundo Hall "o desmatamento total na região [amazônica] aumentou de 0,9% em 1975 para 2,4% em 1978, e para 4% em 1980, mais do que quadruplicando em 15 anos." Fiquei curioso. Liguei o notebook e montei rapidamente um planilha eletrônica com os dados de desmatamento do INPE baseados no PRODES. Fiz alguma assunções. Primeiro, em 1974 o desmatamento da Amazônia era zero; segundo, a área total da Amazônia Legal é de 5.217.423 km2 (informação do google).

Usando a planilha fiz uma regressão linear usando os números citados por Hall e deduzi a percentagem da Amazônia que estaria desmatada em 1987 (y = 0,6105x - 1205 com R2 = 0,982). O valor encontrado foi 8,0635%. Ou seja, baseado no modelito acima em 1987 haviam aproximadamente 8,06% da Amazônia desmatados.

De 1988 até 2007 há estimativas anuais de desmatamento baseadas do PRODES e amplamente divulgadas pelo INPE. Peguei a área da Amazônia desmatada em 1988 e calculei quanto essa área representava em ralação à área total da Amazônia que assumi no início. Ou seja, em 1988 desmatou-se 21.050 km2 e isso corresponde a 0,403456% da área total da Amazônia Legal. Ora, se em 1987 haviam 8,0635% desmatados e se em 1988 foram desmatados 0,403456%, fazendo uma soma algébrica, em 1988 haviam 8,466956% da Amazônia desmatados. Em seguida fiz o mesmo cálculo para os outros anos para os quais há dados oficiais do PRODES e obtive o percentual de área de desmatamento na Amazônia, acumulado ano a ano, entre 1975 e 1987, baseado na regressão linear dos dados citados por Hall, e entre 1988 e 2006 baseados nos dados do INPE obtidos com o PRODES.

E aqui começa a brincadeira de verdade.

O primeiro Código Florestal foi instituído em janeiro de 1934, portanto, em 1974 o Código Florestal completou 40 anos de existência e eu tinha, portanto, dados do avanço do desmatamento na Amazônia para cada aniversário do Código Florestal. Fiz um outra regressão linear com esses dados e obtive o seguinte resultado:

No eixo X está listada a idade do Código Florestal em anos e no eixo Y o desmatamento acumulado na Amazônia em percentagem relativa à área total da Amazônia Legal.

Derivando rapidamente a equação é possível perceber que, na margem, a cada aniversário do Código Florestal, perdemos 0,436% da Amazônia ou 22.747,96 km2. Continuando nessa toada quando a lei completar 83 anos - daqui a 10 anos - teremos ultrapassado 20% da Amazônia legal desmatados; e, em 2034 quanto o Código completar um século de existência "comemoraremos" a transformação de uma área de florestal equivalente a 27,43% de toda a Amazônia Legal em outros usos, provaelmente pasto.

Desnecessário dizer que isso é uma brincadeira que evidencia a ineficácia do Código Florestal sobe qualquer das formas que ele adquiriu ao longo de sua existência.

Raciocínio semelhante pode ser feito sobre o avanço do antropismo sobre outros biomas significativos existentes no Brasil. Quanto o primeiro Código Florestal foi promulgado em 1934 quanto ainda havia de Mata Atlântica? Hoje restam apenas cerca de 7%.

Cenário ainda pior pode vir da análise do avanço sobre os cerrados. Na década de trinta a produção de soja no Brasil era pouco significativa. O boon de expansão da agricultura sobre o cerrado deu-se após a revolução verde no pós-guerra. Portanto pode-se inferir que quando o Código Florestal foi instituído em 1934 o cerrado estava praticamente intacto; mesmo a pecuária existente nos cerrados era uma pecuária arcaica que utilizava poucos insumos e fazia uso quase que totalmente das pastagens naturais dos cerrados. Ou seja, se dispuséssemos de dados de "desmatamento" dos cerrados como dispomos para a Amazônia, seria possível calcular quanto de cerrados perderíamos a cada aniversário da Lei mais avançada do mundo.

Pense sobre isso.

Comentários

Anônimo disse…
Ciro, passa lá no meu blog
http://joaoforest.spaces.live.com/
tem material teu por lá.

Abraço!
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